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Pena de morte e suas contradições Fevereiro 16, 2007

Posted by Ezequiel Vieira in artigos, cotidiano, política.
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por Elaine Dal Gobbo – Estudante do 7ºp de jornalismo/Ufes

Tenho certeza que a pena de morte não impedirá atos violentos cometidos por essa juventude. Sabe por que? Porque essa juventude sabe que vai morrer, com ou sem pena de morte.

Sempre que ocorre um crime com requintes de crueldade tem início a discussão sobre a pena de morte no Brasil e a redução da maioridade penal. Tenho que admitir que em relação à segunda medida mencionada para diminuir a violência eu ainda não tenho opinião formada. Preciso ler mais sobre o assunto e conversar com quem possui uma postura contrária, já que os argumentos de quem é favorável eu já conheço, pois são sempre os mesmos: “uma pessoa que pode votar também pode responder pelo crime que cometeu” ou “uma pessoa de quinze, dezesseis anos sabe muito bem o que faz”.
 
No que diz respeito à pena de morte eu tenho uma opinião formada: sou contra. Muitos fatores me influenciaram na adoção dessa postura, e esses fatores vão desde visitas a presídios, conversas com detentos, agentes penitenciários e jovens inseridos na criminalidade até convicções religiosas. Gostaria de narrar algumas experiências que vivi e que me fizeram crer que a pena de morte é um equívoco. Tive a oportunidade, por meio da Pastoral Carcerária, de visitar o Departamento de Polícia de Jardim América e o Mosesp, em Viana, o que foi uma experiência ímpar. Não vou aqui relatar as condições das cadeias, e sim, falar sobre as conversas que tive com pessoas lá de dentro.

Dialogando com um presidiário, ele me falou o seguinte: “sabe, moça, se alguém for acusado de um crime que não cometeu, se o acusado não tiver informação, e a família também não, ele fica aqui dentro, mesmo que não haja provas contra ele. Sabe por que, moça? Porque quanto mais gente presa, mais o Estado precisa gastar dinheiro com os presos, quanto mais dinheiro enviado, mais dinheiro desviado para o bolso de algumas pessoas”. 

Depois dessa conversa passei a refletir melhor sobre essa questão, até que fui conversar com um agente penitenciário numa entrevista para o Primeira Mão, o jornal laboratório do curso de Comunicação Social da UFES. No final das entrevistas que faço sempre pergunto se há algo mais que o entrevistado acha importante dizer. Para minha surpresa, o agente penitenciário falou o seguinte: “olha, acho que é importante você colocar aí (na matéria) que no presídio tem gente inocente e tem gente que realmente é criminoso, já cumpriu pena, mas está lá dentro ainda. Isso acontece porque o preso custa caro. Se tem muito preso, o investimento tem que ser maior, e é aí que entra o desvio de verba. Há algum tempo foi enviado dinheiro para reforma do Mosesp. Não foi feito praticamente nada lá. Para onde foi essa verba?”. 

A certeza de que muitos inocentes irão morrer é um dos motivos que me impulsionam a ser contra a pena de morte. Porém, não é só isso. Também acredito que tal medida será um genocídio de pobres, jovens e negros. De acordo com pesquisa encomendada pela Organização das Nações Unidas (ONU), 70% dos jovens assassinados no Brasil são negros, moradores de periferia e têm entre 15 e 18 anos. Numa outra entrevista que fiz, dessa vez para uma pesquisa do Programa Conexões de Saberes/UFES, o gestor da Secretaria de Segurança Pública do Governo do Estado do Espírito Santo Coronel José Campos Nivaldo me informou que mais de 90% dos detentos em presídios capixabas tem no máximo 25 anos. O que está acontecendo com esses jovens? São pessoas totalmente sem oportunidades. Não possuem área de lazer em suas comunidades para se distrair, muitas vezes são filhos de pais que vêem no alcoolismo a única forma de não pensar nos próprios problemas e não sabem o que é uma universidade porque não conhecem ninguém que estuda lá e porque a escola não estimula o ingresso no curso superior por achar que esses jovens são incapazes. Além disso, quando circulam em locais de maior projeção social são discriminados por serem negros e pobres. Esse preconceito se reflete nas piadas ofensivas, nos olhares de desprezo e no ato de negar um emprego para esses jovens por não querer empregar um “neguinho favelado”.
 
Isso tudo contribui para o aumento da criminalidade. Tenho certeza que a pena de morte não impedirá atos violentos cometidos por essa juventude. Sabe porque? Porque essa juventude sabe que vai morrer, com ou sem pena de morte. A frase dita por eles é a seguinte: “quem entra nessa vida não vive muito não. Ou é morto por policial, ou é morto por comparsa ou é morto por alguém de um grupo rival. A gente sabe que vai morrer”. Conversando com um amigo que morou no Morro do Bangú, no Rio de Janeiro, ele falou que se for hoje lá no morro vai ver quem são os criminosos, se ele for no ano que vem verá que os criminosos já não são mais os mesmos, serão outros. Ou seja, os bandidos morrem e novos bandidos ocupam o lugar daqueles que se foram.  Portanto, dizer que a pena de morte vai exterminar todos os bandidos é um equívoco, pois, em virtude da falta de políticas públicas, de ações afirmativas, sempre haverá novas pessoas entrando no mundo do crime.

Não estou dizendo, de forma alguma, que os únicos criminosos são negros e pobres. Sei que o tráfico de êxtase, as brigas em diversas boates de classe média que culminam em várias mortes e outras atrocidades são, na grande maioria dos casos, de autoria de jovens que estudam em escolas caras, alimentam-se muito bem e possuem as “bochechas rosadinhas”. Creio que as famílias de classe média precisam rever o tipo de educação que dão para os seus filhos. Encher crianças e adolescentes de bens materiais e esquecer de transmitir valores é uma aberração. Entupir os “pimpolhos” de brinquedos caros e ser um pai ou uma mãe ausente achando que a boneca da Emília é capaz de substituir as figuras paterna e materna é um erro. Torna-los consumidores em potencial faz deles eternos insatisfeitos, achando sempre que têm pouco. Por causa disso, os filhos da elite e da classe média fazem qualquer barbaridade para ter sempre mais e mais e para chamar atenção dos pais.

“Os responsáveis pela violência devem ser mortos”. Então ta. Vamos acabar com a raça humana, não vai sobrar mais ninguém no planeta! Vamos exterminar todos os políticos que nós elegemos e que deixaram diversas pessoas morrerem sem atendimento nos hospitais por terem utilizado o dinheiro da saúde para comprar carros, casas e, inclusive, a boneca da Emília para cuidar de seus filhos. Vamos matar todas as pessoas que ao verem uma briga, seja na rua, ou na porta da escola, incentivaram achando isso a coisa mais legal do mundo, dando estímulo à violência. Vamos dar dez tiros na cabeça de cada pessoa que teve a oportunidade de transformar a vida de alguém por meio de um trabalho voluntário ou de outras formas mas não quis fazer isso porque acha que todo e qualquer trabalho requer uma remuneração. Vamos tirar a vida de quem está no “asfalto” e quando olha para a pobreza do morro sente desprezo, sendo que deveria sentir indignação.

E, para finalizar, você, que assim como eu, é Católico Apostólico Romano, seguidor da Teologia da Libertação, ou simplesmente simpatiza com a essa linha da Igreja Católica, lembre-se de que Jesus Cristo foi condenado à morte, crucificado ao lado de mais duas pessoas, sem ter cometido crime nenhum. Ele apenas incomodou os poderosos com ensinamentos de ideais que priorizam a igualdade, a justiça social e o coletivismo em detrimento do individualismo.

Comentários»

1. juliana farias - Fevereiro 20, 2007

Olha, sinceramente acho seu discurso muito bonito na teoria. Contudo, fico pensando se realmente é só isto. A questão da violência sempre está atrelada a falta de lazer e cultura. Acredito que este não é o único problema em voga. Acontece que hoje existe uma crise generalizada de falta de valores. As pessoas perderam o noção de família, respeito, lealdade, honestidade e tudo mais. Não existe muito limite nas atitudes. Este negócio do consumismo também é relativo e não se justifica. O fato de eu não ter dinheiro para comprar um carro, não justifica eu querer roubar um e consequentemente bater e ofender uma pessoa. A violência também é verbal. A gente se esquece disto. Recentemente, com o crime do garotinho João Hélio, esta realidade foi evidenciada mais uma vez. A mãe dele foi chamada de vagabunda e perdeu o filho porque uma pessoa não teve oportunidade. Sinceramente, não sei. A filha dos richtofen, em São Paulo, teve milhões de oportunidades, planejou e executou a morte dos pais. E ai, é falta de oportunidade?
Nossa sociedade está carente de valores bons, amor ao próximo, respeito, falar bom dia quando encontra alguém, ser gentil. Como diz a sabedoria popular é de pequeno que se torce o pepino. Logo, se uma pessoa não tem estrutura familiar saudável, independente de dinheiro, vai desenvolver e aguçar suas falhas de caráter. Hoje, com as creches e colegios integrais, os pais estão colocando sob a responsabilidade de escola a educação dos filhos. Isto está muito errado. A gente não tem preparado nossas crianças para viver em comunidade e sim no seu nicho privativo.
Além do mais, as escolas não têm suporte para alimentar os valores morais da criança e nem os culturais. No Brasil, ninguém conhece a história do seu estado, mas é obrigado a aprender a capital dos EUA e de toda a Europa. As crianças não aprendem a desenvolver sua inteligência nas escolas. O hábito da leitura está virando aritgo de luxo. Como vi num filme um vez, pra que ler um livro se eu vejo um video e aprendo tudo em menos de duas horas. É irônico, mas é a realidade.
Antes de mais nada, sou contra a pena de morte e a redução da maioridade penal. Acho que as pessoas têm que responder sobre suas atitudes como acontece na Inglaterra, por exemplo. Há alguns anos, dois garotos um de 10 e outro de 7 anos mataram uma criança de 3 anos de idade a pedradas, foram condenados a prisão perpétua. Acho coerente. E você poderia falar mas são crianças? São e não aprenderam que matar é proibido. Não foi algo acidental. Elas viram o menorzinho sofrer e continuaram a tortura. Isto não é ingenuidade. É mal caratismo. Pessoas assim não podem ficar no convivio social.

2. Gabriely Sant'Ana - Fevereiro 24, 2007

Concordo e muito com você, Elaine. A pena de morte no Brasil serviria sim como um genocídio de pobres e negros. Afinal, que tem direito a tirar a vida de outrem? Se alguém faz isso, tenho que igualar? Não sou católica, mas cristã e além de tudo que você explicou ao final, não devemos nos esquecer do que Cristo disse quando alguns judeus quiseram apedrejar aquela mulher. Quem não comete seus crimes? Quem não gostaria de uma chance de reabilitação. Somos humanos e falhos.

O que ocorre não é apenas a perda de valores, mas o esquecimento do amor, esse sentimento altruísta e desinteressado. O ódio aos criminisos vai melhorar a situação? Bem, podem me dizer que o amor também não, mas eu farei a minha parte. Não abandonarei meus filhos aos cuidados de um brinquedo, ou somente com a escola.

Se para os pobres o que leva à criminalidade é a falta de oportunidade, os ricos/classe média sofrem do seu excesso. Dar tudo de mão beijada nunca ajudou ninguém. Estamos cada vez mais mimados…

3. juliana farias - Fevereiro 28, 2007

Isto verdade Gaby. Falando de filhos, que coisa linda. Orgulho da minha amiga intelectual e um futura mulher casada. Bem, acredito que sim no amor, mas não acho que tudo seja culpa da escola. É dos pais que não assumem suas responsabilidades em um mundo cada vez mais individualista e pouco altruista. bjs

4. rafael santos da silva - Setembro 3, 2008

eu achei uma droga