A liberdade que constitui Abril 9, 2007
Posted by Ezequiel Vieira in blogs, economia, política, ufes, web 2.0.5 comments
A disciplina não é estritamente sobre web 2.0 como toscamente sintetizei outro dia. O nome oficial da optativa é Internet, Colaboração e a Produção Midiática – mas poderia muito bem ser batizada com a mesma temática do último Fórum de Comunicação/Ufes – Redes Virtuais e a Constituição Política do Presente.
Mais que do que uma optativa, a matéria é um conhecimento político do presente baseado na perspectiva do pensamento de Antonio Negri – este vídeo é uma apresentação do filósofo no II Seminário Internacional Capitalismo Cognitivo – Economia do Conhecimento e a Constituição do Comum (out de 2005). Acesse aqui a versão transcrita da apresentação.
- Vamos às anotações da última aula
O conceito de multidão é ponto espinhal no pensamento negriano. Multidão é uma abstração que caracteriza um sujeito unificado por uma (cri)atividade onipotente no espaço e espansiva no tempo. É um poder constituinte.
O humano, em Negri, não é apagado em uma coletividade. Ele diz que a modernidade fez com que as multiplicidades caminhassem para um Uno – entidade transcendental. O indivíduo não pertenceria ao singular mas, em última instância, a uma unificação. Aqui temos os exemplos dos conceitos de nação, povo, proletariado etc.
Multidão, ao contrário, seria singularidades que cooperam para construir uma realidade, não pressuposta, a partir daquilo que elas têm em comum. Uma vez que “com singularidades queremos nos referir aqui a um sujeito social cuja diferença não pode ser reduzida à uniformidade, uma diferença que se mantém diferente” e “cuja constituição e ação não se baseiam na identidade ou na unidade (nem muito menos na indiferença), mas naquilo que tem em comum.”
– As mercadorias são produtividades a partir do critério da intelectualidade. O produto da comunicação se constrói em rede.
- O trabalho contemporâneo é marcado pela imaterialidade. Há uma tendência para a informatização da produção – para trabalhar é preciso comunicar.
- A virtualidade passava por uma temporalidade fixa (fabril, cronológica, linear) para trabalhar. Existia hora delimitada pata ir embora. Agora o tempo é único – não há passado, presente ou futuro.
- O tempo do trabalho coloniza a vida. O capitalismo hoje se coloca como um sistema totalizante, inexistindo alternativas visíveis que possam ser consideradas potencialmente pujantes.
- Não existe um fora do capitalismo. Apenas um sistema total que envolve todas as populações potencialmente formadas de todos os que trabalham sob domínio do capital e que recusam este domínio, a multidão.
- O espaço também muda. Ele é um lugar de inter-relações contínuas. A rede é esse novo território. A nova arquitetura.
- A tecnologia está ligada a uma estrutura social que se modifica. A voda está dentro de uma biopolítica. A vida é colocada no centro do poder – tanto da exploração quanto da resistência
- Como existe diferença se minha diferença é logo capturada pelo capital que torna isso um padrão de consumo.
- O plano da singularidade é constituída a partir de uma relação. O comum se faz a partir de uma relação. Multidão – viver com o outro, sem o outro multidão não existe por si mesma.
- O que mobiliza a multidão é a constiuição do comum.
- Não se trata de saber usar uma máquina. A questão é saber atravessar a constiuição do comum através da máquina.
- Não é uma questão de técnica, mas é uma questão de interdependência política e produção de subjetividade singular.
- O produto da multidão é um ambiente midiático novo. A idéia de produção a partir da relação só surgiu com o ambiente midiático da rede.
Etc - Meu inglês é péssimo. Os dados abaixo foram devidamente copiados do blog do Alon. Mas para quem quer mesmo saber a quantas andas, ou andava, a blogosfera, eis o relatório completo do Technorati publicado no dia 05/04.
- 70 milhões de blogs
- 120.000 novos blogs por dia (1,4 por segundo)
- 3.000 a 7.000 novos splogs (falsos blogs, ou spam blogs) por dia (foram 11.000 em dezembro)
- 1.5 milhão de posts por dia (17 posts por segundo)
- Crescimento de 35 a 75 milhões de blogs em 320 dias. Acesse mais sobre o relatório no post Menos quantidade e mais qualidade nos blog
Acesse aqui mais números sobre a internet.
Escritos de uma Páscoa Abril 9, 2007
Posted by Ezequiel Vieira in catarse.add a comment
- Postagem fruto de meus devaneios de final de semana. Não busque coerência. Apenas impressões e inquietações.
Ainda carrrego comigo o resultado de uma infância e começo de adolescência na igreja. Pelas mãos de minha mãe, minha avó e minha tia passei pela igreja Maranata, Católica e Presbiteriana. O medo e o ensinamento me mantinham lá dentro e não por que “bem sei em quem tenho crido”, como se arrogava o apóstolo Paulo.
Mesmo assim, a valorização do humano é o que mais me impressiona na narrativa bíblica. Não é o homem quem tem que se elevar até o divino. É Deus quem se insere na história, se faz carne e chora pelo homem. É uma doutrinha plena de materialidade – aprendi isso sozinho, mesmo ainda não passando para mim de uma história bonita, apesar de sua singularidade.
Por essas reminissências me vejo hoje só valorizando o pensamento que confie ao humano a tarefa de construir sua própria realidade – não acredito em transcendência a ser manifestada a partir de Deus, anjos ou iluminados. “O mundo não é obra de Deus ou do Diabo mas o resultado de nossas escolhas”, como bem costuma dizer um professor por aqui.
Mauro Pertensem – em Opinião Pública, Mídia e Democracia – lembrou, sempre destacando as ressonâncias nietzschianas, que se “sei que sou resultado de minhas experiências, isso traz a possibilidade de podermos escolher quais elementos e realidades vão me influenciar e me constituir como obra de mim mesmo.”
Esse poder de criar, esse poder constituinte de que tanto fala Antonio Negri, tem um forte traço de divino. E é por isso que acredito que a maior ousadia cometida por Espinosa, para ser excomungado e decretado como herege, tenha sido usar a oração* de Cristo para registrar que o humano pode ser imanência de Deus. O maior pecado da igreja, para ele, é celebrar a morte (sexta-feira da paixão) e esquecer da vida (domingo da ressurreição e o verdadeiro dia e sentido da páscoa).
Uma verdadeira anátema digna o bastante para decretar Espinosa como um herege merecedor daquilo a que mais buscava negar, a morte.
* “…. e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, sejam também eles em nós”